sexta-feira, outubro 19, 2012

A coisa tá vermelha



Se há uma característica que tem marcado as últimas eleições municipais em Campina Grande, essa característica é a capacidade do grupo de Veneziano e Vitalzinho no sprint final.

Aconteceu em 2004 e em 2008.

Nesta eleição, o grupo comandado pelos filhos de Dr. Vital, conseguiu, mais uma vez, fazer uma campanha notável sob os três aspectos mais importantes no que toca ao desempenho eleitoral do ponto de vista estatístico: tempo, velocidade e curva (do quarto – tendência – falo mais na frente...).

Esses aspectos definem, basicamente, a duração (ou distância) da disputa, a velocidade média de cada competidor e a evolução dessa velocidade ao longo da “corrida”.

Imagine uma prova de automobilismo onde um carro sai com certa vantagem em relação a outro. O carro que está na frente não tem muito o que planejar em termos de estratégia. É manter a maior velocidade possível, concentrar-se na pista e ter cuidado para não “forçar a máquina” e nem derrapar em alguma curva (ou, pior, em alguma reta!). Já o competidor que sai atrás precisa se preocupar muito mais e planejar a prova passo a passo. Ele pode acelerar tudo que pode – e o que não pode – no início, emparelhar-se logo e disputar palmo a palmo no final ou pode tentar fazer uma prova de chegada, estabelecendo, por exemplo, um ritmo semelhante ao do seu principal concorrente na primeira parte da corrida e uma atitude mais radical na parte final. É, acredito eu, essa a especialidade de Vitalzinho, que reputo ser hoje o principal estrategista político paraibano.

Vitalzinho sabe, como ninguém, determinar a velocidade certa para o início, de maneira a não forçar o carro e não cansar o piloto e percebe, sobretudo, o momento certo de enfiar a bota e ultrapassar o concorrente na reta final.

Foi assim em 2004, quando Veneziano cruzou na frente de Rômulo no segundo turno por uma “peínha” de nada. Se a eleição tivesse sido um dia antes, Rômulo ganharia. Se fosse um dia depois, Veneziano ampliaria a vantagem. É a tal da ascendência/descendência da curva (ou tendência).

Outro exemplo para ilustrar: dois motociclistas vão pular um precipício e para isso serão impulsionados por rampas. Se as duas rampas estiverem na mesma inclinação e um dos motociclistas estiver mais rápido ele terá mais chance, por causa do maior impulso.

Já se uma rampa estiver com uma inclinação maior que a outra, mesmo com a mesma velocidade o motociclista que pular por ela terá mais chances de chegar ao outro lado do que aquele que pular pela rampa com menor inclinação.

Outras variáveis devem ser consideradas, como o vento contra ou a favor, a qualidade e quantidade de "combustível" e até a relação com a "arbitragem", mas vamos nos manter no básico. O que tem acontecido em Campina nas últimas eleições é a união eficiente entre curva e velocidade. Veneziano nas últimas duas campanhas conseguiu chegar ao segundo turno com uma curva mais ascendente e uma velocidade mais alta.

Trazendo esse exemplo para 2012, o que se vê é a mesma estratégia reproduzida na campanha de Tatiana Medeiros e as últimas pesquisas mostram dados animadores para o grupo do PMDB e preocupantes para o grupo do PSDB. (ver gráfico lá em cima)

Aí entra em cena a outra palavra muito usada para avaliar os resultados de pesquisas: tendência. 

Analisando as duas primeiras pesquisas divulgadas no 2º turno, com apenas um dia de diferença entre as duas na coleta dos dados e divulgação dos resultados, nota-se que a diferença, em termos de votos válidos pró-Romero tem uma curva decrescente.

Na pesquisa do Ipespe, contratada pelo Jornal da Paraíba e divulgada ontem (18/10), com captação dos dados de 15 a 17/10, Romero tem 58% e Tatiana tem 42%. Diferença de 16%, variando de 12,5% a 19,5%, aplicando-se a margem de erro de 3,5%.

Na pesquisa do Ibope, contratada pela TV Paraíba e divulgada hoje (19/10), com captação dos dados de 17 a 19/10, Romero tem 55% e Tatiana tem 45%. Diferença de 6% a 14%, aplicando-se a margem de erro de 4%.

Levando em conta apenas a última pesquisa e calculando uma RETA de crescimento, a projeção daria a vitória a Romero, com 52,5% dos votos válidos e 5% de vantagem em relação a Tatiana.

Levando em conta as duas pesquisas e calculando uma CURVA, a projeção mostra que Tatiana se mantém em curva ascendente e Romero projeta uma estabilização ou até o início de uma curva decrescente.

O cenário mostra que a queda de Romero pode até ser improvável neste primeiro momento, mas se uma próxima pesquisa revelar a consolidação dessa curva ascendente de Tatiana isso poderá ter influência nos 6% a 7% de indecisos, inflamar a militância do PMDB, desanimar a militância do PSDB e atingir parte dos que hoje declaram voto em Romero.

O certo é que a história recente mostra que o esquema de Vitalzinho e Veneziano é extremamente hábil para lidar com esses cenários e que uma das marcas do PMDB campinense é a grande capacidade de conseguir um fôlego extra na reta final.

Some-se a isso o fato de que – na minha modesta opinião – a campanha de Tatiana, do ponto de vista mercadológico, foi, sem dúvidas, a mais eficiente destas eleições. Independente de minhas posições pessoais ou profissionais, os programas e inserções do PMDB souberam falar direitinho com a população e levar os eleitores para o lado que mais interessava ao grupo neste momento: a emocionalização do processo de escolha. Enquanto nós, um pouco mais esclarecidos, nos incomodávamos com o excessivo show de lágrimas proporcionado pelos programas e inserções do PMDB, pela negação dos problemas da cidade e pela completa falta de conteúdo nas propostas, as pessoas mais carentes deixavam de lado os aspectos pragmáticos que envolvem a escolha de um gestor público para se solidarizar com aqueles que foram “cuidados” pela “doutora”. Com a mais absoluta certeza, a campanha de Tatiana – e essa é uma marca de Vitalzinho – utilizou-se de um grande e preciso arsenal de pesquisas, principalmente qualitativas e de “tracking” e teve gente com o feeling necessário para saber como utilizá-las. E fazer campanha sem pesquisas hoje em dia é uma aventura que ninguém merece...

A postura da candidata ao longo de toda a campanha também foi claramente determinada a partir da estratégia levada a cabo pelo prefeito, desde que assumiu, há oito anos, onde obras necessárias e cotidianas passaram a ser consideradas conquistas épicas, reformas passaram a ser denominadas de “reconstruções” e melhorias agora são chamadas de “requalificação”. Tatiana soube ser eficiente na defesa intransigente de um modelo com grande ascendência midiática – inclusive com as devidas “blindagens”, típicas dos nossos conglomerados de mídia regionais – e que vem sendo bombardeado há um bom tempo com grande eficiência, proporcionada principalmente pelo cenário macroeconômico e social da era Lula/Dilma, no qual Campina se insere de forma tímida em comparação com outras cidades do mesmo porte, mas que se sobressai em comparação à realidade do período pré-Veneziano.

Do outro lado, temos do lado de Romero uma campanha “padrão Mix”, com todas as suas vantagens e desvantagens. Os programas e inserções do PSDB não têm absolutamente nenhuma diferença do que foi feito nas últimas quase três décadas pela agência que fez sua primeira campanha em Campina Grande ainda na década de 1980, quando ajudou Cássio a conquistar seu primeiro mandato de Prefeito.

Se tirarmos o nome de Romero e substituirmos por Rômulo, voltamos a 2004/2008. O mesmo exemplo vale para Cássio (1988/1996/2000) e Félix (1992).

Multidões nas ruas, textos emocionados narrando os eventos de sempre, músicas enaltecendo as qualidades do povo e da cidade, muita computação gráfica, recortes de documentos e jornais (agora são de sites) cenários em fundo infinito com fotos, figuras geométricas e apresentadoras multirraciais sem nenhuma identificação com a cidade pra lá e pra cá no grande estúdio e, lógico, os velhos filmes/clipes temáticos com crianças, jovens, artistas e idosos. Nem a famosa passagem de Cássio gritando “À Vitória!” faltou...

Só faltou o "hit" de Capilé. E fez falta!

Tudo bem que propaganda eleitoral é clichê e não se pode fugir muito disso, mas essas estratégias não funcionaram em 2004 e nem em 2008. Por que funcionariam agora?

A isso tudo, some-se um candidato que não soube demonstrar na mídia a sua real capacidade de se impor como verdadeiro comandante de sua campanha. Em alguns momentos ensombrado pelo próprio vice, em outros ofuscado pelo principal apoiador – Cássio – e na reta final extremamente prejudicado pela sua ligação com o atual governador, a quem não assumiu nem negou. Romero não teve – ou não demonstrou ter – uma estratégia de discurso clara nesta campanha. O mote da inovação não rendeu muito quando aplicado a um candidato nascido na zona rural e formado em agronomia (que apesar de conter atualmente grande base tecnológica ainda é vista como uma atividade arcaica pelo grande público), principalmente depois que os tablets não se mostraram muito eficientes como alavanca da campanha. Nas entrevistas e debates, algumas propostas pontuais sem muita importância e que atraíram muito pouco a atenção das pessoas, mas, na maioria do tempo, um discurso com exagerado nível de retórica – igual ao de sua principal oponente – mas, no caso de Romero, extremamente genérico. Independente do problema apresentado, a solução de Romero sempre é tratar a todos com respeito, com atenção, com carinho, com o coração, com diálogo... Em poucos casos falou de maneira específica com alguma parcela do eleitorado e isso transpareceu desconhecimento e falta de preparo. E os bordões “Romero é Romero” e “Romero não é brigado com ninguém” disseram pouco do que acredito que pretendiam.

No final das contas, daqui a uma semana teremos a definição do futuro prefeito de Campina Grande e, mais uma vez, a discussão não se baseou na capacidade administrativa dos concorrentes, em propostas claras e exequíveis para os problemas que a cidade enfrenta e em compromissos ligados à correção de posturas políticas e administrativas que muito têm prejudicado nossa cidade há mais de três décadas. Muito pelo contrário, elas foram negadas e serão fatalmente repetidas, independente de quem vença.

A melhor estratégia, a melhor música, a melhor foto, a melhor cor, o melhor logotipo, o melhor depoimento, o melhor apoiador, o melhor blogueiro, a melhor passeata/carreata/comício...

...no próximo dia 28 os eleitores de Campina vão julgar tudo isso, menos quem é o melhor candidato.

Um comentário:

Rodrigo disse...

A pesquisa mais ridícula que já vi!Nem índice de rejeição foi divulgado! há 18% de votos em aberto, e aposta que o vermelho conseguir nem 5% deles.