domingo, junho 30, 2013

E o Cobre?


Está ficando cada vez mais irritante - e já não era pouco - discutir política no Brasil nos últimos tempos.

Principalmente nesses dias de manifestações populares, em que deixamos todos de ser técnico da seleção para nos transformar em comentarista político e os defensores ferrenhos do partido que governa o país há dez anos tentam de maneira truanesca estabelecer que o problema do povo brasileiro não é com o atual governo e que a insatisfação generalizada que atinge de maneira igualitária os poderes da república e até setores que não têm responsabilidade direta sobre a gestão pública brasileira, como a Fifa, a mídia, os bancos e as igrejas, apenas para citar os principais “envolvidos” nessa revolta, isenta a administração central de grande parte da culpa pelas manifestações.

Ou seja, o governo não tem nada a ver com as obras superfaturadas ou não realizadas, nem com a ingerência da Fifa em assuntos absolutamente privativos da administração pública brasileira e com os altos lucros que a instituição está auferindo com os eventos que realiza no país. Mas quem foi que foi atrás da Fifa para trazer as copas para o Brasil?

O governo também não tem nada a ver com o completo descalabro que se instalou no Congresso Nacional, onde corruptos notórios controlam as nossas principais casas legislativas, condenados exercem mandatos eletivos e desafiam a Justiça, procurados pela Interpol ocupam vagas na Comissão de Constituição e Justiça e homofóbicos convictos comandam a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Ora, qual a negociação ocorrida no Congresso Nacional nas últimas décadas que não teve o dedo do governo? Qual o presidente de casa ou comissão, mesmo de oposição, eleito sem o aval do Palácio do Planalto desde a redemocratização do Brasil e, consequentemente, nos últimos dez anos?

Quanto à iminente falência do sistema judiciário brasileiro, não tem nada a ver o governo com uma máquina onde criminosos são inocentados por chicanas jurídicas praticadas livremente por advogados picaretas? Onde milhares de pessoas morrem sem ver suas causas julgadas e para se receber uma dívida não paga por um político velhaco praticante de caixa dois espera-se quase dez anos, sem que o político sequer seja impedido de concorrer em outras eleições ou assumir cargos públicos onde controla orçamentos formados por dinheiro nosso?
Não é culpa do governo federal o fato dos bancos brasileiros terem os maiores lucros do mercado financeiro em todo o planeta? Onde com um telefonema a presidente autoriza mudanças na política econômica que causam bilhões em prejuízos aos cofres públicos mas demora meses e até anos para que seja aprovado um projeto de ajuda a famílias carentes atingidas por alguma tragédia proporcionada pela inércia governamental?

Será inocente o governo que investe bilhões de reais por ano para que a mídia de massa e um grande exército de RPs oficiais e enrustidos enalteçam como qualidades divinas o cumprimento de suas obrigações e que acusa de golpe qualquer tipo de iniciativa institucional ou pessoal para apontar suas falhas generalizadas?

Terá alguma coisa a ver esse governo com a verdadeira invasão de líderes religiosos no âmbito da atividade política, formando hoje a mais numerosa, ostensiva e raivosa bancada do parlamento nacional, capaz de manobrar milhões de brasileiros desinformados de acordo com seus interesses e transformando a administração pública em sua refém?

Haverá alguma ligação desse governo com os numerosos escândalos que eclodem permanentemente desde o seu início, em sua maioria investigados inicialmente e levados a público pela imprensa, para, só depois, serem alvo de investigações oficiais, com violentas pressões de setores oficiais aos órgãos encarregados de apontar os criminosos?

Haverá sentido em, diante de uma denúncia, buscar primordialmente os interesses do denunciante e não a veracidade dos fatos?

Há motivos para acusar o ex-presidente Lula por ter diversos casos de enriquecimento milagroso em sua família (seu filho Luiz Inácio da Silva Filho acaba de comprar um avião de US$ 50 milhões!) ou entre seus amigos-companheiros mais próximos ou por ter uma suposta amante envolvida em um vergonhoso escândalo de tráfico de influência dentro de seu próprio governo e do governo que o sucedeu e sobre o qual ele tem clara ascendência política e administrativa?

Há sentido em acusar a dupla Lula/Dilma pelo fato do Brasil, depois de dez anos sob seu controle direto, ainda não ter cumprido nem uma fração do que prometiam um e outro em suas campanhas para apenas cada mandato de quatro anos?

Em qualquer tentativa de debate com qualquer defensor do atual projeto de poder instalado no Brasil, ao invés de qualquer admissão de culpabilidade, defesa coerente, racional e minimamente convincente a resposta mais rápida, quase automática é: E FHC? E O PSDB? E O DEMOCRATAS?

Diante disso, o reflexo é sempre recorrer ao meu tempo de adolescência, quando, diante de algum espertinho que tentava se defender de algum argumento mudando de assunto, a gente perguntava: E O COBRE*???

O que diabos têm a ver qualquer das opções apresentadas com o que está sendo apontado em relação ao governo atual?

Teve corrupção no governo FHC? Claro que teve! Há corruptos no PSDB? Lógico que há! O PSDB, o Democratas e vários partidos da oposição abrigam alguns dos piores políticos da história brasileira? Abrigam!

Mas a questão é: UM ERRO JUSTIFICA O OUTRO?

Não se pode admitir que a existência de uma falha da oposição seja suficiente para defender uma falha da situação, nem aqui nem em lugar nenhum, como não é justo apontar os acertos de um governo anterior para tentar apagar os acertos do atual.

O que se discute neste momento é se o modelo atual faz mais bem ou mais mal ao Brasil. Eu considero que faz muito mal.

Obtida a resposta, passa-se à próxima questão, que pode ser sobre eventuais mudanças no projeto atual ou quais projetos poderão ser mais positivos para o país, entre eles os que ocuparam o poder no passado. Eu acredito que o modelo atual, juntamente com o PT e seus principais aliados, faliu e se auto destruiu, mas não vejo na volta dos que governaram antes, nem de longe, a solução que o Brasil precisa. Admitindo, inclusive, que o PT ao assumir o poder manteve a mesma política implantada pelo PSDB (com o que 99% dos tucanos concorda) não há sentido no PSDB se apresentar nesse momento como diferente depois de passar anos dizendo que o PT tornou-se seu mais próximo semelhante!

É preciso ir mais fundo!

Antes de mais nada, o Brasil tem que mudar as regras do jogo. Isso pode ser conseguido com a tão propalada reforma política – que pode muito bem ser realizada sem o plebiscito e sem o custo absurdo de R$ 500 milhões.

Estabelecidas as novas regras, é preciso que entrem em campo novos times, com novos técnicos, novos jogadores, que obedeçam finalmente o conceito de jogo em equipe – onde os jogadores são escolhidos pelas suas habilidades e não pela relação com o técnico – e, principalmente, um jeito novo de jogar.

O Brasil não precisa mais de equipes que joguem contra a torcida e nem para a torcida. O Brasil precisa de uma equipe que jogue COM A TORCIDA!

E em relação ao barulhento mimimi das viúvas do PT de décadas passadas e às comparações entre os defeitos e virtudes de hoje com os de ontem, eu continuo repetindo: E O COBRE*?

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