quarta-feira, abril 11, 2012

O Xadrez do Governador



Esses dias, conversando com algumas das cabeças mais iluminadas da Paraíba, tive contato com uma teoria que pode explicar como funciona a estratégia política governista em João Pessoa para as próximas eleições.

É difícil acreditar que os níveis de manipulação da opinião pública tenham avançado a este ponto, mas, enfim, como a Paraíba é o Estado onde taxista dá carona, prostituta se apaixona, traficante se vicia e governante só obedece às leis que quer...

A idéia básica, que parece cada vez mais verossímil, aponta para o seguinte plano, que apresento topicamente:

1. A partir de pesquisas que demonstravam que as ações de seu governo estavam influenciando negativamente na imagem de seu candidato, o Prefeito Luciano Agra, e aproveitando-se do fato de que Luciano estava profundamente magoado com a falta de reconhecimento, por parte da população, pois imaginava que com sua ascensão ao povo finalmente iria perceber de quem era o mérito pelos avanços alcançados nos últimos anos, o Governador decidiu que o Prefeito deveria se retirar – temporariamente – da disputa pela reeleição, determinando que o mesmo se dedicasse inteiramente ao governo e que, na medida do possível, se desvinculasse do Governador e das ações que têm influenciado negativamente na percepção da população sobre a administração estadual. Em alguns pontos, Luciano teria sido orientado, inclusive, a discordar do Governador.

2. Para o lugar de Luciano, Ricardo escolheria alguém que tivesse profundas ligações com o seu projeto de poder original, no esfacelado “coletivo”, de maneira a reagrupar seus colaboradores mais fiéis, órfãos dos espaços antes ocupados no município e também decepcionados com o rumo do Governo Estadual, em torno de um projeto que, ao mesmo tempo em que os envolvesse e ocupasse seu tempo e energias, os afastasse do núcleo de poder político, deixando-o livre para resolver certas pendências administrativas e começar a captar a “estrutura” da campanha próxima de uma maneira que muita gente no coletivo ainda não acredita que existe na era atual.

Convocou Estelizabel.

Queria uma folga do coletivo. O mandou "ir com ela".

3. Percebendo que Luciano, na volta à candidatura e em um possível segundo governo poderia fugir do seu controle e, adicionalmente, vislumbrando as crescentes insatisfações entre os veículos e profissionais de comunicação que não foram contemplados pelas suas “políticas midiáticas”, Ricardo tratou de pensar em alguém para polarizar as discussões sobre a sucessão, eliminando do debate todos os demais candidatos e partidos pretendentes, “amansando” os medias e preparando o terreno para a formação da chapa futura. 

Provocou o lançamento da pré-candidatura de Nonato.

4. A situação deveria se estender até às vésperas das convenções. Luciano se dedicando integralmente ao seu Governo e negando a volta, mas sempre deixando algumas pulgas atrás das orelhas dos analistas e da população. Estelizabel mobilizando a militância ricardista, renovando as esperanças de um governo socialista na Prefeitura, já que o projeto original não vingou no Estado, mantendo o coletivo ocupado nas atividades de pré-campanha e afastado das negociações políticas para as próximas eleições no resto do Estado. 

Nonato, por sua vez, deveria focar suas ações principalmente na mídia, através da participação em eventos, ocupando espaços jornalísticos e fazendo contatos com os colegas, “vendendo-se” como a esperança de que um futuro governo seu pudesse acomodar aqueles que não têm o espaço desejado na estrutura estadual.

Por tabela, com toda a espuma gerada pelas movimentações governistas, os candidatos oposicionistas ficariam relegados a figurantes da disputa, ofuscados pelo que o mainstream da imprensa paraibana atual adora, que é se aproveitar dessas situações para fazer o que tem feito de melhor ultimamente: faturar!

O desfecho da estratégia seria relativamente simples: após alguns meses sem sofrer ataques e ocupando espaços na mídia apenas com suas ações administrativas e através das iniciativas pedindo sua volta à disputa, Luciano retornaria à condição de candidato, livre da carga negativa de ter sido o candidato de Ricardo ao longo de um período extremamente desgastante, com uma imagem fortalecida e mais independente. 

Estelizabel, que levaria até junho a marca de “candidata de Ricardo” não conseguiria se viabilizar como candidata à Prefeitura, mas seria elevada à condição de futura vereadora do coletivo, com a promessa de Ricardo de trabalhar ativamente pela sua eleição. 

Nonato, na condição de preferido da mídia, seria escolhido como o vice capaz de manter Luciano na linha, acomodar setores da imprensa em um futuro governo e evitar disputas pela vaga entre os demais partidos da base, desobrigando Ricardo de engolir um vice que não lhe agradasse, como tem ocorrido em algumas de suas eleições.

Dando tudo certo, Ricardo terá dado um verdadeiro checkmate nos demais candidatos e nos próprios parceiros, viabilizando uma chapa “toda sua”, sem precisar ceder espaços para aqueles grupos e partidos com os quais se relaciona sem muito entusiasmo.

Com o afastamento temporário de Luciano e a independência adquirida por ele próprio e por Nonato no período de “revolta”, estarão eles livres de desgaste antecipado e, mesmo com o apoio estadual, poderão vender uma imagem de diferença entre suas propostas e o estilo de governar de Ricardo.

Ao apoiá-los, Ricardo também garante o seu quinhão junto à opinião pública, produzindo a percepção de que sabe ceder, perdoar, convencer e aglutinar, resgatando o espírito democrata que sempre tentou vender a todo custo, mesmo seus atos o contradizendo a todo instante.

E no caso de alguém interpelar os peões da partida, acusando-os de serem apenas peças minoritárias do jogo do governador, poderiam até usar a frase da moda: “Nós somos amigos de Ricardo, mas não somos propriedade dele”.

Colocada em prática a estratégia, resta saber se todos irão cumprir seus papéis conforme o script.

Será que vai dar certo?

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