domingo, outubro 23, 2011

E quem desmentirá?


Começou a temporada de pesquisas eleitorais na Paraíba.

João Pessoa e Campina Grande serão os alvos da maioria das consultas de opinião, mas a população de várias outras cidades também será sondada.

Juntamente com a já manjada pergunta para saber em quem os eleitores votaram nas eleições passadas – principalmente para o legislativo – os resultados das pesquisas são o fator que mais reflete a falta de memória do brasileiro.

Quase ninguém lembra que a grande maioria dos institutos erra o resultado das eleições.

E isso se considerarmos pesquisas feitas a poucos dias ou até no dia da votação.

Se é assim com as pesquisas de boca de urna, imagine o que não deve haver de discrepâncias em uma pesquisa realizada um ano antes.

Pesquisas eleitorais têm duas variáveis importantíssimas. Uma é bem conhecida da população: a margem de erro, que significa que os números podem oscilar para baixo ou para cima em determinado percentual. A interpretação correta desta variável é sempre o dobro dela mesma. Ou seja, se uma pesquisa tem margem de erro de 3% sua variação real é de 6%, pois que um candidato que tem 30% pode ter 27% e outro, também com 30%, pode ter 33%. Só aí já é motivo de sobra para percebermos que as pesquisas, de fato, podem estar muito distantes da realidade.

Mas há um outro dado sobre pesquisas que é pouco conhecido ou levado em conta pelos "analistas" e pela população: o índice de confiabilidade (ou intervalo de confiança) da pesquisa, que, normalmente, gira entre 94% e 97%.

O que quer dizer esse índice?

Quer dizer que existe entre 3% e 6% de chances reais da pesquisa estar completamente ERRADA.

É isso mesmo. Ao contrário do que muitos pensam, que uma pesquisa pode, no máximo, oscilar dentro da tão comentada margem de erro, ela pode – e muitas oscilam – dentro do índice de confiabilidade. Ou seja, juntando margem de erro com confiabilidade, temos um índice que pode chegar a quase 10% de chance de estar tudo torto.

Olhando por este aspecto, a única conclusão à qual podemos chegar é que pesquisas eleitorais são extremamente frágeis. E olhando para a história recente deste tipo de estudo na Paraíba a única utilidade que posso ver em uma pesquisa eleitoral é a de, ao invés de verificar o cenário momentâneo, influenciar no cenário futuro.

Sabemos todos o quanto, infelizmente, nossos meios de comunicação estão comprometidos politicamente. Sabemos também que é absolutamente impossível a verificação da veracidade de uma pesquisa realizada neste momento. Se as famosas “viradas” ocorrem em apenas alguns dias, imagine em vários meses.

Pensemos, então, em dois cenários diferentes.

Em um, temos um candidato que indubitavelmente se mostra como o que tem maior visibilidade e, a partir do trabalho que desempenha, independente de estar ou não no poder, é o preferido na “boca do povo”. O que acontece se colocamos esse potencial candidato numa posição bem diferente da que “sentimos” na rua, por exemplo, perdendo sua popularidade principalmente em relação aos seus maiores concorrentes? O primeiro reflexo provocado na opinião pública é de que ele “não está tão bem quanto parece”, seguido por outros, como “ele pode estar bem aqui, mas em outras áreas deve estar muito mal” ou “o trabalho dele é bom, mas os dos outros parece ser melhor”.

Neste caso, a pesquisa serve para lançar dúvidas na cabeça do eleitor. Fazê-lo repensar sua opinião e, principalmente, perder a segurança sobre as qualidades de seu candidato e suas reais chances de triunfo. A pesquisa abala profundamente a base do candidato. É a pesquisa “desconstrutiva”.

Imaginemos, agora, um outro cenário. Temos, neste caso, alguém que pretende disputar um determinado cargo, articula esta candidatura nos bastidores mas não tem um trabalho que lhe qualifique junto ao grande público e nem desenvolveu ainda qualquer estratégia para tornar seu nome forte o suficiente para ser lembrado como potencial vencedor – lembrando sempre que a grande maioria do eleitorado só se dispõe a votar em alguém se conseguir vislumbrar alguma chance de vitória. Neste caso, o papel da pesquisa é criar na cabeça do eleitor, num primeiro momento, o candidato (ele existe!), para, em seguida, mostrar-lhe que, apesar dele sequer conhecer aquela pessoa, existe um número considerável de pessoas que não apenas conhece e respeita o seu trabalho, mas, sobretudo, o enxerga com potencial de vitória.

É exatamente o contrário do primeiro caso. O eleitor pensa: “eu nem conheço mas ‘tem muita gente’ que vota nele”, “ele deve estar fazendo um bom trabalho em alguma área” ou, principalmente “se sem nenhuma visibilidade ele conseguiu isso tudo, é um fenômeno!” Pronto, conseguimos o efeito “construtivo” de uma pesquisa.

Há pouco menos de um ano das eleições, a única coisa absoluta que sabemos em relação às pesquisas de opinião que começam a ser divulgadas é que elas não significam absolutamente nada do ponto de vista científica e mercadológico. Não temos como auferir suas prospecções e nem, muito menos, verificar sua falibilidade.

A única conclusão à qual podemos chegar é que neste momento a pesquisa afeta muito mais a opinião das pessoas do que é afetada por ela.

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