quinta-feira, outubro 27, 2011

Paraíba: o jornalismo do "rame-rame"


Imaginemos um esporte parecido com o futebol, mas onde as traves só ficam disponíveis para chutes no último minuto de cada tempo. Os jogadores jogam, jogam durante 44 minutos e depois têm um minuto para tentar marcar gols.

Independente de discutir a viabilidade de um esporte surreal como este, a pergunta que faço é: haveria sentido em narrar um jogo assim?

É óbvio que várias estratégias poderiam ser postas em prática ao longo dos minutos iniciais de cada tempo. Cansar o adversário, provocar cartões e expulsões, derrubar a moral do opositor com jogadas geniais e vários outros artifícios até poderiam tornar a partida interessante para seus jogadores. Mas a torcida teria interesse em ficar observando e ouvindo alguém narrar aquilo durante aquele tempo todo mesmo sabendo que aquilo não teria nenhum desfecho imediato? E, principalmente, haveria alguma função jornalística naquele tipo de cobertura?

Pois bem, se eu pudesse dar um nome a este esporte seria “O RAME RAME”.

Afinal, é isso que a imprensa paraibana tem feito ao longo dos últimos anos, quase décadas.

Mesmo sabendo que a eleição só ocorrerá depois de vários meses, até anos, nossos veículos dedicam em suas páginas e programações tempo e espaços absolutamente incompatíveis com a real importância do que anunciam, discutem, avaliam, debatem, polemizam, repercutem ou do que, resumindo em uma palavra muito usada nas rodas de debate espalhadas pelas praças e bares de qualquer cidade, "moem".

E esse moído tomou proporções ainda maiores com a disseminação de sites, portais, blogs e perfis no twitter dedicados exclusivamente à cobertura da política paraibana. Eu acredito seriamente que a Paraíba é uma das regiões do mundo com maior número de veículos de comunicação exclusivamente virtuais especializados nas notícias locais e regionais. As variações de “paraiba” e “pb” em domínios de internet já devem ter acabado há um bom tempo e a maioria dos sites, apesar de divulgar notícias sobre tudo, têm, claramente, como maior interesse a cobertura dos fatos políticos.

Sem, mais uma vez, entrar no debate sobre a qualidade desses sites (alguns nos fazem grandes vergonhas), a intenção de seus proprietários (quase sempre ligados ao campo da política) ou a competência de seus profissionais (quando não jovens jornalistas iniciantes enganados pelos "sócios", profissionais literalmente f... e mal pagos), o problema é encontrar FATOS, de verdade, diários na política paraibana.

Moído é fácil de encontrar. E quando não se encontra, se inventa.

No último dia 25, durante uma entrevista coletiva, após responder diversas perguntas sobre "os bastidores da política" e nenhuma sobre seus projetos para o mandato de senador que poderá assumir em breve, o ex-governador paraibano Cássio Cunha Lima trouxe a tona mais esse "moído" para ser discutido. Após a condenação, por parte do entrevistado, da postura da imprensa, no que denominou de “rame rame” da política, um representante da “classe” correu logo para defender o velho e bom – embora cada vez mais ultrapassado – ponto de vista de que a imprensa divulga o que o povo quer ver.

A questão é que a imprensa, tanto quanto qualquer outra atividade e, na minha opinião, mais do que a maioria delas, deve entender seu papel social e adotar o compromisso de levar à população informações que sejam relevantes e que contribuam para a formação da consciência crítica do meio no qual está inserida.

Nossa imprensa deixou de fazer isso faz tempo!

Jornalismo comunitário, que deveria ser a base de todas as pautas dos veículos locais, é relegado a segundo ou terceiro plano. Preferimos ocupar o tempo de nossos informativos repercutindo os “efeitos” locais de um casamento real inglês ou as tendências da moda para o verão europeu do que trazer à luz problemas de uma determinada comunidade ou grupo social que implora por visibilidade nas vizinhanças da empresa de comunicação. Até em pautas “obrigatórias”, como aquelas que se repetem a cada data festiva ou período do ano falta criatividade para se dar uma abordagem pertinente no contexto social com o qual o veículo tem responsabilidade.

A definição dos assuntos que ocupam o jornalismo paraibano está baseada nos aspectos audiência/faturamento/interesses políticos, não necessariamente nessa ordem. Qualidade, prestação de serviços, compromisso social, isenção, profissionalismo e relevância dos temas foram retirados dos objetivos de TODAS as redações.

Ao invés de formar cidadãos responsáveis, conscientes, críticos e exigentes, estamos contribuindo para a criação de uma geração de leitores, ouvintes e expectadores ainda mais débeis, alienados e desinformados.

Se antes essa debilidade, alienação e desinformação poderia ser creditada ao analfabetismo, hoje a culpa é, cada vez mais, da falta de leitura de conteúdos informacionais que possam incentivar o exercício da cidadania.

No que isso vai dar no futuro eu não sei. Mas sei que não pode ser nada de bom.

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