quinta-feira, agosto 25, 2011

O ensino na periferia do mundo



Foi divulgado recentemente, no youtube, um vídeo com a transcrição de uma gravação em áudio, na qual um professor do curso de engenharia (não sei qual delas) da UFPB perde a paciência com seus alunos, após um deles solicitar que ele “agilize” a chamada.

No vídeo (áudio),  aparentemente transtornado, aquele que seria o professor Ângelo Vieira diz, entre outras coisas, topicamente:

“Lá além (ele refere-se, segundo o autor do vídeo, ao ITA e à USP), aluno, quando não estuda, repete 10 anos.”

“Está na hora de vocês se tornarem pessoas adultas. Não um bando de moleques.”

“Quando eu boto uma mínima prova, ninguém faz. Cadê o cara bom?”

“Sorte de vocês que, por estarem numa universidade de periferia, não são cobrados como os caras do ITA.”

E o vídeo continua. Para vê-lo na íntegra, clique aqui.

O que me impressionou neste caso não foi o desabafo do professor, mas o tom de “denúncia” adotado por quem gravou, legendou (com graves problemas de gramática e regência) e postou no youtube.

Os alunos se sentiram ameaçados, quando, ao final, o professor afirma que eles não sabem com quem estão mexendo.

De fato é uma ameaça. Mas o que ele poderia fazer para puni-los pelo que ele os acusa? Ensinar direito?

Pois é, no mundo em que vivemos, ensinamos e aprendemos, um professor que se aventura a seguir à risca as suas obrigações pode sofrer toda sorte de acusações. E será, com absoluta certeza, alvo de bem poucos elogios.

Caímos, mais uma vez, no bordão “O professor faz de conta que ensina e o aluno faz de conta que aprende”.

Como professor e aluno, tenho dezenas de histórias que poderiam ilustrar esta situação. Uma delas, quando ainda era aluno da UEPB, é de uma professora que foi muito mal avaliada pela minha turma e defendeu-se dizendo que não entendia aquela nota, pois “fez tudo o que a gente queria”. Basta dizer que a professora melhor avaliada em todo o curso pela nossa turma era carinhosamente apelidada de “Hitler”.

Como professor, já participei de um episódio surreal, onde um aluno não concordou com a nota recebida, pediu revisão de nota e quando fui avaliar mais a fundo o trabalho descobri que o texto tinha “somente” 88% de “Ctrl+C / Ctrl-V”. O resto era uma enorme sucessão de erros de gramática (era aquele famoso trecho “com suas palavras”). Ou seja, a segurança do aluno era que sua fonte não merecia nota baixa e o problema dele era a incompetência até pra escolher uma boa fonte.

Com relação ao que diz o professor Ângelo, concordo com TUDO, mas, admito, suas declarações são, na verdade, uma confissão de culpa que atinge a todos nós, professores e alunos, pois admitindo que, de fato, estamos na periferia do mundo, temos consciência, também, que não é porque estamos aqui que não podemos fazer a diferença em qualquer outro lugar. E não nos faltam provas disso.

Não me espanta muito ver desinteresse e irresponsabilidade em alunos de instituições públicas, afinal, como diziam alguns colegas, obviamente, completos alienados, "eu só tô aqui pra não ficar parado", "porque eu preciso dar satisfação pros meus pais" ou o típico "eu não tô pagando nada mesmo".

Mas se tem uma coisa que me deixa intrigado de verdade é a falta de compromisso quando se trata de ensino superior privado. Grande parte dos alunos, de fato, ainda se comporta como moleques e me pergunto o que passa em suas cabeças quando pedem para começar as aulas mais tarde, terminar mais cedo, maneirar no conteúdo, não fazer provas (“faça seminário, professor!”) etc. Só se comportam como “clientes” na hora de pedir “direitos” que quase nunca têm efeito direto sobre o ensino e, muitas vezes, utilizam-se do papel de "consumidor" justamente para reivindicar certas mordomias.

Pois é, meu caro Ângelo, infelizmente não estamos em 1830, quando Abraham Lincoln escreveu esta carta para o professor de seu filho:

Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.
  
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
  
Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
  
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso. Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens. Eu sei que estou pedindo muito, mas veja o que pode fazer, caro professor."
  
Abraham Lincoln, 1830


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